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Viver o Spurs de dentro: a história de um brasileiro no Norte de Londres

A distância entre São Paulo e Tottenham passa de nove mil quilômetros, mas para um grupo crescente de brasileiros em Londres ela se encurta a cada partida disputada no norte da capital inglesa. É nessa ponte invisível que mora a história de Lucas, engenheiro de 34 anos que trocou a Zona Sul paulistana pelo bairro londrino de Tottenham para trabalhar em um projeto de TI. Nesta conversa exclusiva, ele abre a rotina, os dilemas e as alegrias de seguir o clube do coração morando a poucas estações de metrô do estádio.

Lucas cresceu vendo o pai torcer pelo Tottenham nas transmissões de televisão dos anos 1990 e carregou desde criança a imagem de Jürgen Klinsmann como referência de um futebol que parecia pertencer a outro planeta. Quando a oportunidade profissional surgiu em 2019, ele não pensou duas vezes: queria viver de perto o clube que conhecia de longe. Cinco anos depois, ainda se impressiona ao atravessar o Seven Sisters Road e estar diante do estádio inaugurado em 2019.

A entrevista foi construída ao longo de uma temporada em pubs de High Road, em chamadas de vídeo com a família em São Paulo e em mensagens trocadas na madrugada londrina. O objetivo é mostrar como se constrói a identidade de um brasileiro torcedor do Spurs entre o sotaque cockney dos vizinhos e a saudade do feijão servido na casa da mãe.

A chegada ao bairro que dá nome ao clube

Tottenham não é apenas o nome de um time. É um bairro com identidade própria, marcado pela história de trabalhadores e imigrantes que segue viva até hoje. Quando Lucas desembarcou em Londres, o primeiro choque foi perceber como o distrito respirava o clube de forma quase orgânica. Em cada esquina havia referências ao time: bares com camisas emolduradas, muros grafitados com o cockerel e crianças de uniforme branco correndo pelo parque Bruce Castle.

A adaptação inicial foi dura. O engenheiro passou três meses tentando entender o ritmo da cidade e a relação dos moradores com o futebol local. Diferente do Brasil, onde o clube está muitas vezes separado da vida cotidiana, em Tottenham a discussão sobre escalação começa no supermercado e termina na fila do ônibus. O vínculo com o pai, antes limitado às transmissões de madrugada, virou rotina de ligações para dividir alegrias e explicar cada nova derrota em casa.

A primeira noite no Tottenham Hotspur Stadium

A primeira visita ao estádio aconteceu num sábado frio de dezembro de 2019, antes de a pandemia mudar a rotina da cidade. Lucas conseguiu um ingresso na zona sul por meio de um colega inglês e entrou sem saber o que esperar. Quando a arquibancada se acendeu com os celulares e o cântico "Yid Army" tomou conta do anel inferior, ele sentiu que pisava num capítulo vivo do livro lido à distância.

A emoção foi tanta que ele confessa ter chorado no primeiro gol, mesmo sendo contra o adversário. Conta que o som produzido por sessenta mil gargantas é algo que nenhuma transmissão de TV reproduz de verdade. A partir daquela partida, passou a frequentar assiduamente o estádio, alternando setores para entender como a torcida se comporta em cada ponto da arena.

O ritual sagrado dos dias de jogo

Antes da bola rolar, a concentração de torcedores começa em pubs tradicionais como o Bricklayers Arms e o Antwerp Arms, a poucos minutos a pé do estádio. Lucas resume o passo a passo da maneira que aprendeu ao longo das temporadas e sugere os costumes que fazem toda a diferença na experiência:

  • Chegar ao pub pelo menos três horas antes do apito inicial para garantir lugar sentado.
  • Pedir uma pint de cerveja amarga ou um copo de sidra, nunca de lager suave.
  • Entrar no canto coletivo de "Glory Glory Tottenham Hotspur" mesmo sem saber metade da letra.
  • Caminhar em grupo pela High Road até as catracas do estádio.
  • Levar cachecol mesmo em dias amenos, pois o vento dentro da arena costuma ser cortante.

Esses códigos funcionam como passaporte invisível para qualquer torcedor estrangeiro que queira ser tratado como igual. Depois de algumas temporadas, Lucas passou a indicá-los a amigos que visitam Londres em dias de Premier League, virando espécie de guia oficioso do bairro.

A saudade que mora entre São Paulo e Tottenham

Morar no exterior não diminui o carinho pelo Brasil, e a relação com a família virou rotina paralela ao calendário do Spurs. Toda manhã, antes de abrir o notebook, ele checa o grupo de WhatsApp com o pai e os irmãos em São Paulo, que comentam os jogos mesmo dormindo durante as partidas. Muitas vezes ele acorda com várias mensagens já enviadas e responde com áudios improvisados sobre cada lance da rodada.

A saudade aparece também em sabores. Ele faz questão de preparar feijoada uma vez por mês para receber amigos brasileiros e explicar, entre uma garfada e outra, o que significa viver o futebol inglês por dentro. O encontro virou ponto de uma turma pequena, porém fiel, que se reúne para assistir às partidas fora de casa em coletivos improvisados.

A rede verde-e-branca que fala português

A comunidade brasileira de torcedores é maior do que se imagina e se espalha por bairros como Camden, Hackney e Stratford. Lucas participa de um grupo no Telegram com cerca de quatrocentos membros, onde se combinam encontros nos pubs, trocas de ingressos e celebrações depois de resultados improváveis. Foi por ali que ele conheceu os amigos com quem viaja para ver jogos fora de Londres.

A rede também funciona como central de informação para quem chega ao país e quer assistir aos jogos sem pagar caro pela TV a cabo. Eles indicam canais de streaming confiáveis, debatem escalações e recomendam fontes de notícias atualizadas sobre o clube. Para Lucas, é a prova de que o futebol mantém a capacidade de juntar desconhecidos em torno de uma bandeira comum a milhares de quilômetros da arquibancada original.

Os ídolos atuais da arquibancada brasileira

Lucas evita se apaixonar individualmente por jogadores porque já viu ídolos deixarem o clube sem aviso. Ainda assim, reconhece que a geração atual tem peças que viraram queridinhas dos brasileiros em Londres. Em conversa recente, listou os nomes que considera fundamentais para a caminhada do clube nos próximos anos:

  • Son Heung-min, pela regularidade silenciosa e pela liderança discreta.
  • Cristian Romero, pela intensidade que nenhum defensor oferece.
  • James Maddison, pelo seu papel de mestre do meio-campo que dita o ritmo da equipe.
  • Pape Matar Sarr, pela juventude aliada ao vigor físico.
  • Dejan Kulusevski, pela capacidade de decidir partidas com arrancadas improváveis.

Cada um desses atletas representa um pouco do DNA que Lucas enxerga no Tottenham: talento quase explosivo, muita energia física e uma confiança renovada depois da chegada de Ange Postecoglou ao comando. Para entender os bastidores desses nomes, ele acompanha reportagens especializadas e troca impressões com a comunidade brasileira antes de cada debate em grupo.

O que ainda vem pela frente em White Hart Lane

Lucas não pretende voltar ao Brasil em curto prazo. Pelo contrário, já fala em comprar um camarote compartilhado com amigos para acompanhar a temporada 2025/26 com mais conforto. O plano inclui cursos de formação tática da federação inglesa e, quem sabe, um dia treinar uma escolinha de futebol no próprio bairro de Tottenham, devolvendo à comunidade um pouco do que ela oferece aos imigrantes.

A pergunta que mais escuta da família em São Paulo é se ele sente falta do calor brasileiro. A resposta é sempre a mesma: sente, mas a troca foi justa. Viver em Tottenham significa acordar a quinze minutos do cockerel gigante sobre a arquibancada, ouvir o hino do clube entoado por vizinhos e ainda preparar café com bolo de fubá quando bate uma vontade mineira no meio da semana inglesa.

Se você curtiu a rotina do Lucas, mantenha o alambrado por perto e siga o Brasil Spurs para não perder nenhum detalhe da próxima jornada do time no Norte de Londres. Compartilhe a entrevista nas suas redes, marque aquele amigo brasileiro que ainda acompanha os jogos de madrugada e siga firme ao lado do cockerel: o próximo capítulo está sendo escrito agora mesmo em Tottenham.